A tragédia de Judas é que ele nunca viu a cruz

Estamos celebrando o tempo da Páscoa. Como Igreja, olhamos para a cruz e recordamos o sacrifício de Cristo em nosso favor. Pensamos no túmulo vazio e nos alegramos com sua ressurreição.

Ainda assim, já faz alguns dias estou meditando e refletindo sobre a tragédia de Judas na Paixão de Cristo. Logo você vai entender o que quero afirmar com a palavra “tragédia” e o porquê estou me preocupando com a pessoa de Judas!

Veja o que nos diz o Evangelista Mateus:
“Quando Judas, o traidor, viu que Jesus havia sido condenado, sentiu remorso e foi devolver as trinta moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos líderes judeus, dizendo: — Eu pequei, entregando à morte um homem inocente. Eles responderam: — O que é que nós temos com isso? O problema é seu. Então Judas jogou o dinheiro para dentro do Templo e saiu. Depois foi e se enforcou.” (Mt 27. 3-5)


Normalmente condenamos Judas e o excluímos do grupo dos doze. Jesus não fez isto. Ele o chamou de “meu amigo”. Jesus também lavou seus pés. Jesus lhe deu o pão e o vinho na última ceia. A Bíblia o chama de “um dos doze”. Sinceramente, deve existir um pouco de Judas em cada um de nós. E existe algo de nós em Judas.

Como pessoas cristãs, que devem refletir e avaliar seus erros e suas falhas, não é correto excluir Judas dos demais discípulos. Não é correto malhar o Judas. Em nada nos ajuda rejeitar Judas com horror e pensar que somos melhores ou superiores a ele.

A partir da Bíblia compreendemos que Judas era uma pessoa fiel a seus objetivos e suas crenças. Mas, por diversas razões, ele acabou se desiludindo com a vida. Possivelmente ele se desesperou diante das crises que a realidade da vida nos impõe.

Judas nos ensina uma grande lição: até mesmo os discípulos mais próximos, até aqueles que lutam com maior bravura, podem entrar em crise, desanimar e não ver mais perspectivas concretas na caminhada e no discipulado. Judas não é um demônio. Ele não foi o pior dos discípulos. Pelo contrário, ele era fiel aos seus objetivos e queria ver a transformação acontecer. O problema é que ele buscava os resultados a qualquer custo. Judas não media esforços para alcançar as metas. Ele agia e fazia o que acreditava ser o mais apropriado. Mas, como todo bom e fiel seguidor de Jesus, ele errou e falhou.

Judas deveria ter confiado mais em Jesus do que em seus planos pessoais; devia ter confiado mais no Mestre do que em seus projetos; devia ter pensado mais no amor de Jesus do que nas maquinações de sua mente.

Costumamos condenar Judas por haver traído Jesus. Mas, não é correto fazer tal julgamento. Dadas às perspectivas, de um jeito ou de outro, em algum momento, Jesus seria traído, por Judas ou por qualquer outro. Basta ler atentamente os evangelhos e nos daremos por conta disto. Cabe lembrar que condenamos Judas por haver traído o Salvador, mas Pedro o negou três vezes; Tiago e João estavam mais preocupados com seus postos de poder do que com a obra do Messias; Tomé duvidou do Cristo Ressurreto; e antes, na hora do aperto, todos os discípulos fugiram e se esconderam para não morrer junto com Jesus.

Vejamos também que Judas era tal como você e eu. Ele falhava, mas tinha consciência dos seus atos e pedia perdão. Isso mesmo! Judas entregou Jesus às autoridades por 30 moedas de prata. Mas, quando ele viu o que estavam fazendo com seu Senhor, ele ficou completamente triste. Arrasado! Judas viu o seu pecado. Ele não conseguia ficar em paz. Judas se arrependeu do seu erro. Ele tentou fazer alguma coisa a respeito. Ele recuou em seus objetivos. Suas palavras são bem claras: “— Eu pequei, entregando à morte um homem inocente.

Talvez você esteja imaginando: “Agora Judas virou um santo!”. De modo algum. Nenhuma atitude de Judas o justifica. Assim como nenhuma de nossas atitudes, tampouco, pode nos justificar. Judas é tão pecador quanto cada um e cada uma de nós. Dentre os seus erros nada o faz melhor ou pior. Apenas uma atitude o deixa distante da graça salvadora de Cristo. Não é somente a traição ou o suicídio por enforcamento. O que realmente afasta Judas da graça misericordiosa de Deus é não ter dado tempo de olhar para a cruz! O grande pecado de Judas não foi nem um nem ou outro. Sua tragédia é nunca ter visto a cruz de Jesus.

Judas desistiu de viver; desistiu de lutar; desistiu de confiar antes mesmo de a cruz cumprir seu efeito. Aqui está o grande erro de Judas: ele não olhou para a cruz de Cristo. Ele não deixou que Jesus o purificasse de seus pecados no sacrifício do Cordeiro de Deus pendurado no madeiro. Ele preferiu pendurar também em um madeiro (a árvore do enforcamento).

Agora, porque eu cheguei até aqui? Uma semana antes da Páscoa, na cidade de Alto Alegre do Parecis (RO), área de abrangência da Paróquia na qual atuo, um certo jovem se enforcou. Ele também desistiu de viver. Alguns jovens de nossas Comunidades eram amigos e amigas dele. Conversando com alguns senti o quão tristes estão. Percebi como gostavam daquele rapaz e como se entristeciam com sua decisão de dar fim à sua vida.

O jovem suicida deixou uma mensagem se despedindo. Ele postou na internet um vídeo onde dá adeus à vida e diz que deseja ir embora.

Pergunto-me: quantos jovens, quantas jovens, em nossas Comunidades, também não estão desesperançosos e desiludidos com a vida? Quantos pessoas ao nosso redor não estão cansados de buscar seus objetivos pessoais e, não vendo resultados, também desejam o fim, a morte, o descanso forçado?

Não quero julgar o jovem que se enforcou, tal como não quero malhar o Judas. Não quero condenar pessoa alguma. Mas, me pergunto: será que em nossa realidade não estamos com a “Síndrome de Judas”? Será que não estamos nos esquecendo da cruz de Jesus? Será que nosso desespero e falta de esperança não se dá pelo fato de NÃO fixarmos nossa atenção ao Cristo crucificado por mim por você?

O teólogo Tom Houston escreveu: “A cruz em que Jesus morreu é o antídoto para a imagem indesejável que temos de nós mesmos”. E o Pastor Luterano Gottfried Brakemeier afirmou: “A confiança em Deus... ela certamente não é vã.”

Enfim, precisamos confiar na ação de Jesus através de sua cruz. Devemos olhar firmemente para ela e orar tal como Martim Lutero: “Querido Senhor Jesus... consola-me o fato de teres morrido por mim e me respingado com o sangue de tuas santas feridas... Dá-me coragem para ter fé... Não preciso temer na incerteza, medo e dúvida...”. Amém!

Pastor Marcelo
Paróquia Luterana Caminho da Fé
Alta Floresta D’oeste-RO
(Sínodo da Amazônia - IECLB)

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