"O inverno está chegando..."


Na série Game of Thrones, transmitida pela HBO, repete-se insistentemente a frase “o inverno está chegando...”. Quem acompanha a trama, sabe que o enredo deixa bem claro que para os habitantes dos Sete Reinos de Westeros os "verões duram décadas e os invernos uma vida inteira". Todos se preparam para suportar o inverno. Ao passo que este se aproxima, vem preocupação e crise. Por isto a insistência: o inverno está chegando! É um alerta; um sobreaviso para ficar atento e vigilante.

A narrativa antes citada é uma estória que mistura o épico e o fantasioso. O que ali acontece não é real. Não é uma reprodução da vida comum. Mas, o que seriam os “invernos de uma vida inteira” em nossa realidade? Como entender que “o inverno está chegando” no mundo nada épico ou fantasioso do qual fazemos parte?

Alguns historiadores classificam o tempo atual como sendo o da “pós-modernidade”. Vivemos em um tempo de transição, e isto por dois motivos: 1) estamos saltando de um período para outro e 2) este período no qual nos inserimos é de transição constante.

Enquanto que em épocas e períodos anteriores as mudanças demoravam dezenas e até centenas de anos para acontecer, em nosso tempo elas ocorrem a todo instante e de todos os modos possíveis.

Por conta deste fator, cresce o sentimento de insegurança, falta de apoio e desamparo. Em virtude das constantes transformações em nível global, regional e local as pessoas perderam seu chão, falta-lhes um norte, um guia. Em suma, temos a ausência de uma orientação clara que conduza o viver.

O que isto tem haver com a frase “o inverno está chegando”? A referida exclamação faz com que os habitantes dos Sete Reinos de Westeros fiquem atentos, alerta e vigilantes para as mudanças, transformações e transições. Para eles o inverno não é simplesmente uma estação climática. É a nomeação de um período de crise que necessita de especial atenção.

Nosso tempo atual é o período no qual “o inverno está chegando”. O frio deste tempo já pode ser sentido. A necessidade de abrigo e proteção é iminente. Somos pessoas que corremos o risco de passar frio. Somos pessoas sujeitas a não ter como nos aquecer neste inverno que está se aproximando.

A cada dia que passa as pessoas perdem seus referenciais de vida, suas bases, enfim, seus valores mais fundamentais. Parece que o tempo da pós-modernidade gera um sentido de liquidez total. Aquilo que nos é importante – que gostaríamos de manter conosco – escorre pelos nossos dedos e desaparece no ralo do grande bueiro que vem se transformando o mundo.

Em épocas anteriores a Educação promulgava um determinado padrão de pensamento e comportamento. O processo educativo atual encontra dificuldade para firmar bases sólidas na sociedade, por conta da deturpação dos valores fundamentais nos quais se embasava. Em décadas passadas as ideologias políticas agregavam pessoas em torno de um objetivo comum. Observamos que atualmente há uma “con-fusão” política. Ideologias e ideais filosóficos ficaram perdidos nas lutas partidaristas de esquerda, direita, centro, centro-esquerda; e por aí já não é mais possível se encontrar neste conflito. A religião, que durante a história da humanidade foi, quiçá, a principal ferramenta de solidificação e clareza para o pensar, agir e existir da humanidade parece não alcançar mais seu alvo. Em tempos como o nosso, falando especificamente do cristianismo, vemos uma religião que se perde num vasto panteão denominacional. A desordem é total!


Em meio a este inverno rigoroso encontram-se as pessoas. Todas elas – sem exceção? – passando frio e necessitando de proteção, abrigo e amparo. Carentes de suporte intelectual, físico, emocional e espiritual.

Essas pessoas, parece que, estão esquecidas em meio ao iminente inverno. Estão ao relento e, como é natural para quem precisa de aconchego durante o frio, procuram um lugar para se aquecer. E onde elas têm se aquecido? Eis a questão!

Já não é novidade que muitas destas pessoas, em total desespero, procuram um fogo ardente nas drogas. Sejam elas lícitas ou ilícitas. Outras se enfiam a fundo no cobertor de ideologias “neoage” ou exotéricas. Também há aquelas que querem fugir do frio viajando para outro ambiente. Estas se deixam levar pela pior espécie de droga: o espiritismo.

O mercado e o mundo da economia têm a clara noção que “o inverno está chegando”, por isso oferta e vende soluções para todos os tipos de frio. O consumismo é o subterfúgio ao qual grande quantidade de pessoas se aconchega para suportar a invernia. Na ausência de valores, crenças e ideais, a ilusão do obter e possuir bens de consumo vem tomando conta da mente (e atitudes) das pessoas.

Na mesma lógica do mercado de consumo estão as novas expressões religiosas. Tais muito se assemelham a uma rede de lojas. Você está com frio de acolhimento? Compre o calor da acolhida de Deus! Você está com frio de reconhecimento social? Compre o calor do triunfo! Você com frio de sucesso? Compre o calor da prosperidade! É mais ou menos assim que funciona. Você é um cliente com muito frio que compra o calor do serviço religioso. Este te aquece por certo tempo, então você precisa voltar a comprar e barganhar com Deus ou, mais precisamente, com os intermediários: os vendedores da graça do aquecimento.

É preciso entender que, realmente, “o inverno está chegando” e as pessoas precisam se aquecer. Elas precisam encontrar amparo, acolhida, aconchego e calor que realmente as faça sentir segurança neste tempo tão hostil. As soluções que o mundo tem oferecido – relatadas anteriormente – não conseguem suprir as necessidades humanas. Por um tempo (muito curto) dão a falsa imagem de aquecimento e segurança para o inverno. Mas, a longo prazo, não resolvem o problema do frio. Por isso há tanta oferta de filosofias de vida, de partidarismo político, de consumo material, de religiosidades gnósticas e outras tantas possibilidades. As pessoas estão com frio e precisam sentir-se aquecidas.  

Caso a necessidade de aquecimento não seja suprida, neste tempo de inverno, podem ocorrer, além de alguns calafrios, situações mais dramáticas. A depressão já vem sendo considerada o mal dos males. E, agora, aumenta na população um desânimo em relação à vida. Muitas pessoas vivem numa profunda tristeza, apatia e falta de energia. É muito comum encontrar pessoas que não conseguem ver um horizonte diferente... um futuro promissor. Estão, por assim dizer, desanimadas e desiludidas. Perderam o sentido da existência.

Mas, como o frio requer cuidados, elas, ainda que perdidas, procuram um conforto caloroso. A latente necessidade de aquecimento no inverno as faz procurar apoio e amparo.

A Teologia Luterana sabe disso. E, por conta disto, há quase 500 anos, vem insistindo que – seja para o frio do momento ou para um inverno rigoroso – o aquecimento e o calor essencial está em um só: Deus!

Martim Lutero afirmou como central que, para aquecer a nossa vida, é preciso “temer e amar a Deus e confiar nEle sobre todas as coisas”. Não é possível suportar o frio desta época e o inverno que está vindo sem buscar proximidade com Deus. Na realidade as pessoas querem esta proximidade. Mas, parece que não estão sabendo como vivenciá-la. Diante da pergunta “como posso conseguir calor e aconchego misericordioso?”, o reformador da igreja, biblicamente, responderia que não nos é possível “consegui-lo”. É Deus quem nos dá isto por graça, através da fé.

O vento forte e frio que nos abate faz com que queiramos conquistar e lutar por aconchego. Mas, é Deus, através de Jesus, quem se aproxima e nos aquece com seu amor incondicional. Cabe-nos, simplesmente, abraçar o calor do Evangelho. Este ato passivo vai nos fazer suportar o frio iminente, encontrar conforto verdadeiro e ter clareza para continuar vivenciando a dádiva da vida, mesmo que em meio a um rigoroso inverno.

A Bíblia está repleta de relatos que nos dão certeza desta calorosa iniciativa de Deus (Sl 23, 46, 121). A vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo é o ápice desta verdade. O testemunho dos profetas e apóstolos não nos deixam dúvida quanto a esta esperança, a qual quer ser vivenciada já aqui (agora) e plenamente no Reino Eterno de Deus.

A IECLB, herdeira da Reforma de Lutero, entende que isto deve ser vivenciado pelas pessoas. Todas precisam sentir o calor e aconchego da presença de Deus. Por este razão ela anima e motiva seus membros a vivenciarem a dádiva do Batismo através da vida em Comunidade. A Igreja, a nossa Comunidade, é o local privilegiado para nos aquecermos no amor de Deus. Por meio da vida celebrativa da Igreja somos aconchegamos na Palavra e nos Sacramentos. Estes nos dão força e vigor para suportar o frio latente.

Só que, não basta simplesmente procurar calor e conforto para nós, de forma individual e egocêntrica. Todos têm direito de aquecer-se na Palavra de Deus e sentir o calor do seu amor. De tal modo a IECLB promove diversas iniciativas de vida em comunhão. A missão é isto!

Para este ano de 2013 estamos sentindo este acalentar por meio do tema “Ser, Participar e Testemunhar: Eu vivo comunidade.” O tema do ano nos mostra que somos aquecidos por Deus. Esse calor deve ser preservado através da participação contínua e constante na vida comunitária. Devemos dar testemunho (mostrar) desta realidade e assim motivar para que as pessoas saiam do frio e protejam-se do inverno vivendo em comunidade.

O inverno pode até estar chegando, mas o amor de Deus está presente para aquecer todos os aqueles que necessitam! Amém.


PPHM Marcelo

Um comentário:

  1. Ana Raquel Rodrigues09/05/2013 14:56

    Muito interessante! Curti tua publicação no face, pelo sentido atribuido à frase na série, mas é interessante colocá-lo em nossa vida!

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