Josué 5. 9-12 - Prédica 4º Domingo na Quaresma

JOSUÉ 5. 9-12

Saudação de Púlpito:
“Que a graça e a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão com o Espírito Santo esteja conosco hoje e sempre. Amém!”

Estimada Comunidade, existe uma expressão popular que afirma: “Recordar é Viver”. Logo, podemos entender que esquecer, não lembrar, não trazer à memória é morrer, porque recordar é que é viver.

Para o povo de Israel isto era uma verdade incontestável. O Antigo Testamento constantemente retrata que o povo buscava manter viva a sua história e trajetória para jamais esquecer quem eles são (para manter sua identidade, para existir e para ser). O texto de Josué, lido anteriormente, é um exemplo desta afirmação.

Nesta passagem encontramos o final da história do Êxodo. No livro de Josué é narrada a “Conquista da Terra”. O povo hebreu vagou 40 anos pelo deserto, fugindo da escravidão do Egito. Eles finalmente chegam ao Rio Jordão, o atravessam e entram na terra prometida (a terra de Israel, onde mana leite e mel). 

Agora, para entender a função deste texto histórico na vida comunitária do povo Israel, é preciso compreender o porquê de haver sido escrito e contado adiante. Por que rememoraram esta história?

Ora, o livro de Josué é uma narrativa retrospectiva. Isto quer dizer que foi escrito num momento futuro (tempos depois de haver ocorrido a situação). O texto conta uma experiência real do passado, para explicar uma situação presente na atualidade da história do povo.

Que situação é essa? Depois de ter conquistado a tão sonhada terra prometida, o povo de Israel viveu ali por mais de 600 anos. Mas, a partir do ano de 587 a.C. o império da Babilônia atacou esta terra, destruiu tudo o que eles tinham e levou o povo em exílio para a Babilônia. De uma forma parecida - 600 anos depois da escravidão do Egito - eles eram novamente “escravos”. Só que agora no exílio babilônico.

O povo de Israel sofreu um duro golpe com a destruição de sua terra e com o exílio. Eles estavam arrasados. Sua fé estava enfraquecendo. Estavam a ponto de não mais saber quem eles eram. Sentiam uma forte dor e uma tristeza inconsolável. A esperança era um fogo sujeito a perder sua chama e seu calor.

Aqui está a razão, o porquê, de recordar sua história do passado. Recordar é viver! Diante das intempéries da vida, recordar a nossa história é manter viva a memória e afirmar a identidade. É por isso que o povo de Israel, exilado na babilônia, conta e reconta a maravilhosa história da conquista da terra de Canaã na época da Páscoa, na Festa da libertação.

O povo de Israel estava em crise. Necessitava urgentemente recuperar sua identidade reafirmando a fé no Deus Libertador.

Recordando que um dia foram escravos no Egito, e que Deus tirou deles o opróbrio, a vergonha da escravidão, e os libertou, eles alimentavam as esperanças.

Se em tempos de dificuldade, no deserto, Deus mandou o maná, o sustento; agora, no exílio, Deus também iria sustentar o povo rumo a uma vida livre e plena.

Exilado, numa terra estranha e estrangeira, sentiam-se irmanados ao ouvir contar a história de seus ancestrais que também sofreram e foram maltratados na estranha e estrangeira terra do Egito.

Cada vez que o povo de Israel, no exílio, se encontrava, como comunidade, para celebrar a fé, louvar e meditar na Lei de Deus, contavam adiante a história da libertação do Egito. Desta forma, mesmo na tristeza do exílio, recordando sua trajetória mantiveram-se vivos, firmes, unidos, com fé e esperança. Porque, recordar é viver!

O tempo passou e cerca de 70 anos depois, o império babilônico foi derrotado. O povo de Israel foi libertado, mas só pôde voltar pra sua terra, porque manteve viva a sua história - a história de um povo que recorda quem é seu Deus e quem eles mesmos são.

Inspirados neste testemunho bíblico, surgem algumas perguntas:
 - Quem nós somos?
 - Qual é nossa história?
 - O que temos pra contar sobre a nossa caminhada como indivíduos, famílias e Comunidade?
 - O que nos identifica?
 - Quais são os valores que cultivamos em nossa trajetória de vida?

Tal como o povo de Israel, precisamos manter viva a nossa história. Temos a necessidade de afirmar a nossa identidade diante da sociedade corrompida que nos cerca. O Tema do Ano para 2013 (Ser, Participar,Testemunhar: Eu vivo comunidade), através de reflexões e estudos, quer nos ajudar nesta tarefa. Participar das atividades da comunidade é uma maneira de dar passos em direção a este objetivo.

Todos desejam que a vida melhore. Queremos que a nossa família seja mais unida. Sonhamos com uma comunidade sempre mais comprometida com o Evangelho. Ansiamos por mudança e transformação. Porém, se não conhecemos o nosso passado, como podemos mudar a nosso futuro?

O filósofo luterano Sören Kierkergaard, talvez inspirado pelo testemunho do povo de Israel, afirmou: “A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.” Neste tempo de quaresma, somos chamados por Deus a redescobrir quem somos para não ficar perdidos no mundo secularizado e desvirtuado no qual vivemos. A nossa sociedade parece que perdeu os valores fundamentais para uma vida sadia. Basta sair uma sexta-feira, ou um sábado a noite pela cidade que nós veremos isto. Até num domingo pela manhã ouvimos os ecos de vidas desvalorizadas e sem sentido (tut, tut, tut, tut – carros com som alto).

Em 2006, quando fui para a faculdade, tudo era novo, diferente... E uma amiga me disse uma frase: “Pra você se manter firme aqui, nunca se esqueça quem você é e porque você veio pra cá.” Sete anos depois eu ainda sou grato por este conselho. Ele me ajudou a manter viva a minha trajetória, a rever minhas atitudes e continuar firme em meus objetivos.

Todo culto é uma recordação e rememoração do que Cristo fez e faz por nós. Na última ceia Ele disse: “fazei isto em memória de mim”. Nesta Páscoa, ao recordar a ressurreição de Cristo, que Deus ressuscite a nossa história de vida, os valores cristãos que cultivamos enquanto Igreja Luterana que somos. Recordemos: somos povo de Deus, corpo de Cristo. Vamos ser, participar e testemunhar, pois recordar é viver comunidade!

Benção de Púlpito:
“Que a paz de Deus que excede todo o entendimento guarde nossos corações e nossas mentes em Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém!”

PPHM Marcelo

2 comentários:

  1. OI Marcelo! Gostei da tua prédica,achei que ela trará conhecimento histórico bíblico para os ouvintes e o faz de uma forma agradável e nao esquece de instigar para os desafios da atualidade.

    Adorei o link com o dito popular, mas ele poderia ser reelaborado "recordar AJUDA A viver". Se ficarmos só com o "recordar é viver" legitimamos a atitude de certas pessoas que mitas vezes estão em cargos de liderança e que usam outro dito popular: "sempre foi assim". Mas o recordar com certeza nos motiva a viver principalmente em tempos de exílio. E nos desafios de cada pessoa também acontecem momentos que o recordar ajuda a encontrar forças para seguir adiante.

    Tem uma outra parte onde tu escreve: "A nossa sociedade parece que perdeu os valores fundamentais para uma vida sadia". Acho que legitima posturas moralistas em nossas comunidades. Concordo contigo que a vida nao anda lá muito sadia e que as pessoas usam o som alto, a festa, a bebedeira como subterfúgio, mas também temos que ser gratos por muita coisa que mudou.

    Muita coisa já acontecia, por exemplo, as pessoas de antigamente tbem tinham seus subterfúgios, talvez menos "ruidosos" mas ainda assim danosos.

    Acredito que tu concorda comigo que foi muito bom para nossa geração o fato de muitas pessoas das nossas culturas sejam germânicas, pomeranas ou qualquer outra terem se tornado um poco mais flexíveis. Mas a mudança que é positiva por um lado, por outro sempre gera desinstabilidade e tempo de reestruturação.

    Agora é tempo de igreja e sociedade apresentar um novo caminho, uma espiritualidade que acolha estas pessoas do som alto e tantas outras. Se apenas criticarmos estas posturas, estas pessoas se afastam e não vão encontrar uma proposta que elas se sintam acolhidas e motivadas para mudar.

    Abração :)

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    1. Oi Denise!
      Muito obrigado por comentar e fazer estas valiosas considerações. Agradeço por trazer mais uma possibilidade de visão hermenêutica. Antes de você escrever não havia me fixado nestes importantes detalhes. Publiquei teu comentário de modo que @s leitores (as) possam aproveitar as tuas observações.
      Sinta-se à vontade para, na medida do possível, colaborar em nosso “Rascunho”, pois todas as “ideias” vão contribuir.
      Abraços fraternos e carinhosos ;-)

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