Professor, para ter valor, precisa saber nadar?



Não sei se já perceberam, mas o ser humano, constantemente, precisa se justificar de alguma forma, para ser valorizado e reconhecido. Sempre e novamente a pessoa humana é compelida a mostrar seu valor, sua importância e suas capacidades produtivas. 

Observando o processo de interação na sociedade, percebe-se claramente que, todos os dias, somos coagidos e obrigados pela sociedade global a que nos justifiquemos como pessoas que produzem e fazem as coisas acontecerem. No convívio humano, ninguém é reconhecido naturalmente. Para ter reconhecimento pessoal, para ter um lugar ao sol, precisamos conquistar, a duras penas, nosso espaço.

Isso não é diferente na arte de ensinar. Na vocação de professor (educador) somos cobrados cotidianamente a dar resultados efetivos. Acontece este fenômeno porque vivemos num ambiente global, que cobra incisivamente resultados. Neste espaço vivencial da “posmodernidade”, erroneamente, somos valorizados e definidos pela nossa capacidade produtiva. Quanto mais produzimos, tanto mais somos valorizados. Quando deixamos de produzir, ou nos tornamos menos eficientes, vamos - gradativa ou instantaneamente - perdendo nosso lugar de destaque.

Observando de modo racional e lógico, é necessário que sejamos cobrados. É extremamente importante que nos retirem de nossa “zona de conforto” e nos lancem ao convívio intenso da vida para que produzamos, criemos e fomentemos novas formas de atuação profissional e pessoal. Como diz o ditado popular, “quando a água bate na bunda é que o sujeito aprende a nadar”. No entanto, é preciso tomar cuidado. Por acaso vocês já viram como reage uma pessoa quando está desesperada, em alto-mar, na iminência de se afogar? Justamente nisto reside o problema das cobranças por produção e supervalorização.

No atual momento histórico, estamos sendo coagidos a pensar que somente seremos importantes se mostrarmos resultados, em todos os níveis e a todo o momento. Na atual conjuntura, nos instigam a pensar que somente seremos valorizados por nossa capacidade produtiva. Mas, o que acontece quando nos sentimos sem valor, sem capacidade, sem perspectiva de vida, sem possibilidades criativas? Em muitos momentos, em nossa vida profissional e pessoal, parece que não conseguimos nadar e chegar a um porto seguro. Em diversos momentos de nossa vida, sentimos que nadamos contra a maré. 

Não foi somente uma ou duas vezes que, em escolas diferentes, já ouvimos ou vimos professores desmotivados com suas aulas, seus salários ou seus alunos. Muitas eram as cobranças e poucos eram os resultados. Como reagir? Adianta nadar? Vale apena ficar se cansando neste rio caudaloso? Não seria melhor desistir e deixar a correnteza nos levar para onde quiser? Quem sabe o caos e falta de perspectiva seja a melhor das alternativas para nossa vida. Vamos parar de tentar! Vamos desistir e deixar o corpo cair corredeira abaixo, até chegar ao fim do leito do rio da vida.

Neste momento, quando chegamos ao limiar de crise existencial, quando estamos desesperançosos com a vida atual ou futura, olhamos para a Palavra de Deus na Bíblia e lemos: “Concluímos, pois, que o ser humano é justificado pela fé, independente das obras da lei.” (Romanos 3.28).

Recorrendo à Palavra de Deus percebemos que, SIM, precisamos ser cobrados em nossas atividades. Como professores, estamos comprometidos com uma causa - a Educação – e não podemos esmorecer. Nossa tarefa é árdua, mas promove transformação de mentalidades e proporciona novas perspectivas sociais. Sim, ser professor é uma batalha diária de nadar incansavelmente contra a maré; contra a maré da ignorância. E, esperamos ver o resultado na beleza do diferencial que proporcionamos ao convívio humano.

Mas, apesar de tudo isto, é imprescindível que não pensemos e nem deixemos pensar que somente somos pessoas de valor e de importância por causa dos resultados de nossa atuação. Somos gente, somos pessoas, somo indivíduos, somos comunidade que quer e precisa viver bem. Não podemos nadar somente para produzir (obrigação), precisamos nadar para curtir as braçadas na água (prazer).

Professor que sabe nadar tem valor. Mas, o nosso valor, nos ensina a Bíblia, não é fruto de nosso esforço pessoal, de nossas conquistas e vitórias. Nosso valor é graça e dádiva de Deus. Nossos amigos, familiares, colegas de trabalho e alunos devem ver-nos como irmãos na fé em Cristo. Nosso valor real foi dado por Deus, em Jesus Cristo, porque “Concluimos, pois, que o ser humano é justificado (valorizado) pela fé, independente das obras da lei (produção pessoal).

Marcelo Peter
(reflexão para Reunião Pedagógica no CERB)