Pessoas, profissões e imperfeições na Bíblia


         Existe uma grande diferença na forma como lidamos com os objetos (coisas) e as pessoas. Pelo menos deveria haver. Por exemplo, uma taça de vinho tem um valor, uma utilidade, enquanto é apropriada para uso. Quando quebra ou trinca perde seu valor. Não serve para mais nada. Torna-se lixo. Logicamente irá ser descartada por conta de sua imperfeição, inutilidade e falta de função própria. Irá para o lixo; será reciclada; tornar-se-á, quem sabe, outro objeto.
        As pessoas, por sua vez, não podem e não devem ser descartadas, jogadas no lixo e empurradas para a sarjeta como se não tivessem valor ou qualidade. Infelizmente a lógica consumista e capitalista do mundo posmoderno, transferiu para os relacionamentos sociais e profissionais o critério utilizado com os objetos e as coisas. As pessoas são tratadas não como seres humanos, como indivíduos pertencentes a uma comunidade, mas como “coisas”, “objetos” e “instrumentos” que servem ou não servem; têm funcionalidade ou não; produzem ou não.
        Neste sistema “bruto, rústico e sistemático”, a valorização que Deus nos confere (justificação – Mateus 20, Romanos 3, Efésios 2) perde totalmente seu sentido. Deus nos valoriza apesar das nossas falhas e dificuldades. Logicamente, Ele não quer que continuemos vivendo nas falhas, erros e decisões equivocadas (pecados). Ele deseja profundamente que nos deixemos ser transformados pela vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, através da graça do Batismo.
        A lógica da aceitação e valorização incondicional que vem de Deus (salvação) está em direto conflito e embate com a lógica do sistema econômico e político, que valoriza as pessoas apenas por suas capacidades e potencial produtivo.
        Dando uma rápida visualizada no testemunho das Sagradas Escrituras, exemplificando, perceberemos que é possível estar inserido na sociedade, no mercado de trabalho e na vida política sem, necessariamente, usar o critério do “presta” ou “não presta”. Porque, se fosse assim, muitos ícones da Bíblia não prestariam. Os seres humanos, filhos de Deus, têm valor, apesar de suas imperfeições e dificuldades pessoais. Mesmo em meio às falhas ou erros, Deus valoriza as pessoas.
        Vamos brincar um pouco com alguns paradigmas da Bíblia:
NOÉ: poderemos considerá-lo o primeiro “engenheiro” da história. Ele construiu a grande Arca (Gn 6). Um grande profissional. Mas, Noé era alcoólico. Tinha uma doença incurável e fatal (Gn 9);
ABRAÃO: é o responsável por organizar seu povo em clãs (pequenos grupos). Quem sabe, foi o primeiro “administrador” (Gn 12). Não tinha descentes, mas mesmo na velhice, Deus lhe deu um filho. Ele, para não se responsabilizar e não sofrer as consequências de disputas políticas, mentiu sobre seu estado civil e colocou sua esposa em situação complicada frente a outros homens (Gn 20);
ISAQUE: deveria suceder Abraão, seu pai, na tarefa de conduzir o clã (Gn 24), mas era medroso e covarde. Não tinha atitude e opinião própria (Gn 26);
JACÓ: filho de Isaque, tinha um irmão gêmeo, Esaú. Para ocupar o cargo familiar (direito de primogenitura) jogou sujo. Mentiu e enganou seu pai na velhice, ou seja, não merecia aquilo que recebeu (Gn 27);
MOISÉS: o grande líder do povo hebreu; o libertador dos escravos do Egito. Quem sabe tenha cursado “Comunicação Social com ênfase em Marketing”. Pois bem, este grande comunicador e conciliador era gago (Êx 4.10);
GIDEÃO: foi considerado um grande juiz para as tribos israelitas (Jz 6). Mas, durante toda sua vida e atuação sempre teve dúvidas sobre sua capacidade pessoal para a função que ocupava (Jz 6.15);
DAVI: até hoje é lembrado como o grande Rei de Israel. Não há rei que possa ser comparado a Davi. Nem mesmo Salomão (filho) pôde superar este grande governador. No entanto, ele cometeu dois grandes crimes: adultério e assassinato (2Sm 11);
JEREMIAS e TIMÓTEO: o primeiro foi profeta, o segundo foi colaborador de Paulo em suas viagens missionárias. Os dois sentiam-se incompetentes por serem jovens demais. Achavam que não serviam para o trabalho que lhes era designado (Jr 1, 1Tm 4.12);
JONAS: em sua atuação podemos considerá-lo um “professor”. Recebeu a tarefa de “educar” e instruir as pessoas de Nínive. Mas, Jonas era irresponsável. Não cumpria fielmente com suas obrigações (Jn 1);
JOÃO BATISTA: foi responsável por anunciar a chegada do Messias. Sua tarefa consistia em ser porta-voz da mensagem do Reino. Este grande profeta era um cara estranho. Vestia-se de forma estranha; comia coisas estranhas... era todo estranho (Mt 3);
PEDRO: o líder dos discípulos, deveria manter a unidade do grupo, estava incumbido de orientar e conduzir as decisões no grupo... Pedro negou seu mestre três vezes (Mt 26);
MARTA: uma mulher de um povoado por onde Jesus passou. Essa mulher, nos dias de hoje seria considerada hiperativa (Lc 10);
PAULO: o grande apóstolo. Responsável pela fundação e condução da vida de diversas comunidades. Orientador teológico da vida cristã. Antes de atuar em prol das comunidades foi conivente com um assassinato (At 7). Para completar, Paulo tinha uma deficiência física: ao longo dos anos foi perdendo a visão (Gl 4).
        Poderíamos elencar e brincar com outros tantos textos e exemplos bíblicos. Em todos eles percebemos pessoas falhas, imperfeitas, cheias de dificuldades – as mais diversas – e vemos também a atuação de Deus, valorizando e transformando a vida dessas pessoas. A partir disto, não podemos aceitar a lógica que exclui e humilha as pessoas por conta de suas imperfeições, incapacidades ou dificuldades pessoais. Temos valor não pela coisas que fazemos, mas pelo que Cristo fez por nós.
        Deus não aceita o erro. Ele aceita a pessoa que errou, e a transforma por sua imensa graça. Deus não olha nossas capacidades, incapacidades, habilidades ou imperfeições. Deus vê, em cada uma de nós, uma semente do seu amor que precisa germinar, tornar-se uma planta e florescer para a vida em abundância (Jo 10.10). Não somos objetos. “Somos plantas, ramos da videira em flor, carentes do cuidado de um bom agricultor. Deus nos alimenta para bem crescer. É a fonte necessária pra viver.” (HPD 431)

Marcelo Peter
(Reflexão realizada no Colégio Evangélico Rui Barbosa - CERB)